sexta-feira, 6 de março de 2009

Ave

Foste alguém.
Humilde, quem és? Após acontecimentos, recordas-te do passado, simbólico, desfavoroso, exagerado em teus actos reais.
Humilde, o que serás num futuro, privado da guerra que provocaste?
Que falsa modéstia exibes, e as leis que reges, sempre superiores à verdade que tu próprio impinges.
E nenhuma acção mais melancólica, funesta que esta, que adelgaça a força dessa sensaboria.
Humilde, baila na sonoridade das blasfémias e maldições de que intermediário foste, porque não contente por ser humilde, quiseste ser ave.
Voa, tu que não foste banido, apenas preferiste ser livre; evoca o aconchego protector das águas serenas que sinto nos meus invulgares sonhos.
Ave, extingue as memórias que me matam o riso e a ira, deixa o tempo voejar, desvairado, nas tuas esmeradas asas.
Desta tua alma pura, nada sobrou, nem a serenidade passada; sobressaiu apenas a hipocrisia santa que me lançou num sepulcro absoluto, onde tu estás escondido, e seguro.
Ave, protege-me nesta morte tão nobre, com essas asas magistrais, longas e puras, autênticas armaduras.


MartaVilão